004 | Quando usar um brinco faz toda a diferença

Eu comecei a usar brinco em 1992 e na verdade nem eu sei o motivo por que eu tomei essa decisão. Bom, eu não sabia no início, mas logo depois eu entendi e foi uma decisão até de certo ponto espiritual. Um dos motivos que eu comecei a usar foi a ‘mania’ entre músicos profissionais e essa foi a minha vida durante anos….

Eu fazia parte de uma Banda evangélica chamada BANDA VIDA ABUNDANTE e fizemos um relativo sucesso na década de 90. A maioria de nossas músicas tocou muito bem nas rádios Melodia, El-Shadday e Boas Novas, todas do Rio de Janeiro. Nossos maiores sucessos foram as regravações: Doce Espírito, Flui, Nossa Bandeira, Cria em Mim, Estamos Aqui e a inédita Santo de autoria da BVA.

As nossas apresentações e shows em Conchas Acústicas, eram precedidas por um ‘arrastão’ que era a forma como denominávamos os evangelismos de rua que fazíamos antes de cada apresentação, hoje, em 2018 se você falar ‘arrastão’ é capaz de ir todo mundo preso.

Evangelizávamos e convidávamos para os shows. Em geral nós recebíamos de 300 a 500 pessoas por shows e muitas vidas se renderem aos pés da cruz de Cristo. Nós perdemos as contas de quantas vidas foram salvas e muitas outras reconciliadas com Deus em nossas apresentações. Foram 15 anos na estrada.

Nós evangelizávamos de bermudas, camisetas e folhetos nas mãos. Nunca usávamos bíblias para não haver preconceito com ‘os crentes’. Com uma linguagem popular, cheia de gírias e uma aparência jovial e ‘desleixada’, éramos facilmente aceitos para um ‘bate-papo’ que terminava em oração e reconciliação.

Mas teve uma caso em especial que marcou muito a minha vida.

O local foi uma favela de Cabo Frio, no interior do Rio de Janeiro em 1994. Hoje essa Favela é chamada de Favela do Lixo e já naquela época era um perigosa região das praias litorâneas cariocas.

Estávamos no interior daquela favela e com muito cuidado nos aproximamos de um grupo de traficantes. Pelo numero de bandidos e de armamentos pesados que eles carregavam, logo compreendemos que ali era a boca de fumo da favela. Aqueles eram os ‘soldados’ que protegiam aquela boca.

Puxamos papo com os traficantes, eram mas ou menos uns 6 bandidos de fuzis e pistolas, e começamos a falar de futebol, praia e mulheres. Eles nem perceberam quando começamos a falar de Jesus e passamos a evangelizá-los. O papo seguia animado e descontraído, quando um deles virou para mim e disse:

– ‘Ô maluco, peraí que o chefe tem que te conhecer‘ disse se afastando de nós.

Ele entrou numa casa que parecia abandonada e em instantes voltou com mais 4 bandidos fortemente armados e um deles era o ‘chefe’. Continuamos a conversa e o papo descontraído, mas na verdade o clima de medo e tensão ficou ainda maior pois nós não sabíamos o que podia acontecer.

O papo transcorria normalmente e falamos como Jesus mudou a nossa vida e eu fui direto ao assunto:

– ‘Você vai ver a gente tocar hoje’? perguntei ao ‘chefe’.

Ele com deboche perguntou se ele podia ir de brinco e mostrou o dele. Eu respondi:

–  ‘O seu brinco é feio, o meu é mais bonito’, e mostrei o meu brinco pra ele pois até aquele momento ele não havia percebido que eu também usava um brinco na orelha esquerda:

Completamente sem graça, ele tentou arrumar outra desculpa:

– ‘Então eu posso ir de fuzil ou vou ter que ir na mão?’ Todos os traficantes deram risadas.

Eu disse pra ele:

 ‘Você só vai se for muito burro, pois se os ‘homens’ chegarem por lá (maneira que se refere aos policiais, no Rio de Janeiro) de fuzil vai ficar ruim pra você se esconder, seria melhor você ir de Pistola que é mais fácil passar despercebido’.

Visivelmente desnorteado e sem saber mais o que dizer, ele apenas falou: ‘Eu vou!’

E realmente ele foi e levou a esposa, os dois filhos o pai e a mãe e naquela noite após a nossa apresentação que sempre terminava com um apelo, toda aquela família se entregou aos pés da cruz de Cristo e hoje ele é um pastor na própria cidade de Cabo Frio. Naquela mesma noite entregamos as armas na DP de Cabo Frio pois ele deixou as pistolas no altar.

Esse é o motivo que eu uso brinco até hoje, primeiro por que gosto, segundo por que a minha esposa acha um charme e em terceiro por que essa história marcou a minha vida, e eu não tenho coragem de parar de usar.

Aqueles que me criticam por eu usar brinco, eu apenas digo:

– ‘O dia que você entrar numa favela e através de suas posturas e de seu brinco, um traficante se converter e se tornar pastor, eu vou admitir que você fale qualquer coisa comigo nesse sentido. Fora isso, nem vou te ouvir pois para mim são apenas besteiras as suas recriminações, vindas de alguém que nunca fez nada para o Evangelho’.

Leia o que eu penso sobre julgamentos no meu editorial: EU NÃO LIGO PARA AS ACUSAÇÕES: NINGUÉM É O TEU JUIZ!

‘Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. E eu faço isto por causa do evangelho, para ser também participante dele.’ 1 Coríntios 9:21-23

Léo Vilhena
Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.’

Filipenses 3:12,14

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Meu brinco

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